11/10/2017

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Você precisa respeitar a geração de Wanessa Camargo antes de venerar Anitta


Texto por: Carol Caiana

Olhando para o cenário pop brasileiro atualmente, sua ascensão, e claro, reconhecimento, inclusive internacional que a música latina em geral anda conquistando no mundo, não podemos nos esquecer o start disso tudo.
A música pop do Brasil teve o seu destaque e ponta pé inicial nos anos 2000, agregando valores, mas principalmente referências aos principais nomes que vestem essa bandeira hoje em dia.
Podemos citar, a princípio, Wanessa Camargo, onde teve que enfrentar, logo assim de primeira, uma gigante concorrência: Sandy e Júnior.
A dupla de irmãos já possuía o seu público alvo e uma pegada pop em suas canções, ou seja, como uma menina desconhecida, filha de pai sertanejo também, igual Sandy, que na época era modelo e inspiração para 9 em cada 10 adolescentes do país.

Enfrentar o preconceito, rejeição, e ouvir, quase em tempo integral total tipo de comparações, em início de carreira, não é fácil, ainda mais em frente às câmeras.
Essa história, apesar de ter acontecido no início dos anos 2000 te pareceu familiar, né? Afinal, Anitta, há aproximadamente 5 anos atrás sofreu o mesmo tipo de perseguição, comparações com Kelly Key, questionamentos sobre sua capacidade, entre outras coisas.
Por falar em Kelly Key, a cantora foi uma das nossas primeiras hit maker. A loira coleciona milhões de acessos em seus clipes, que para a época, entregava o que o público esperava: coreografias, cenários e figurinos. Isso te lembra, atualmente, a carreira de alguma cantora de pop funk brasileira?
Anitta, hoje tem como principal objetivo a carreira internacional, mas ela não é pioneira neste sonho, tão pouco, a única em transformá-lo em realidade. Quem não se lembra do álbum Sandy e Júnior internacional, com videoclipes e letras totalmente em inglês? 

Obviamente é inevitável admitir que mais do que qualquer outra tentativa, Anitta foi a artista que chegou mais longe na industria gringa, mas também não dá para negar que carreira internacional não se resume a conquistar o topo das paradas gringas, afinal, desde que algum não nativo consuma um produto fonográfico brasileiro, automaticamente isso se torna uma exportação da arte, não é mesmo?

De fato, precisamos reconhecer que Anitta tem seu pioneirismo em alguns aspectos, mas não podemos esquecer do ensinamento dos nossos pais quando diziam "respeitem os mais velhos", pois, isso nada mais é do que um ato de gratidão e reconhecimento, que também deveria ser mais praticado pela propria "popstar/funkeira".


 Mas porque não é coerente amar Anitta e não respeitar a trajetória de Wanessa Camargo, que escolhemos para representar a antiga geração do pop? 
Wanessa inovou quando era melhor se acomodar com os rumos do pop brasileiro, bandas se desfazendo (Rouge, Br'Oz, SNZ, KLB), duplas se separando (Sandy e Júnior), artistas escolhendo públicos menores e intimistas, como Sandy e Luiza Possi, enquanto a filha de Zezé investia em duetos com rappers, como Ja Rule e Souja Boy e buscou referências em coreografia com Bryan Tanaka, que trabalhou com Mariah Carey e Beyoncé. Se você assistiu o DVD "DNA Ao Vivo" da Wanessa, você bem sabe do que estou falando, né? 
Na época ela empregou alguns dos melhores bailarinos do país, formando um squad de dança como admirávamos nos melhores clipes internacionais, deu visibilidade a ótimos djs e produtores da cena eletrônica independente como Deeplick, Mister Jam e Tommy Love e proporcionou a juventude alguns hits que embalaram as pistas em cada canto do país.

Anitta é sem dúvidas uma artista de muito talento, mas as referências brasileiras que inspiraram hoje dignamente a rainha do pop brasileiro (se é que podemos a chamar assim,porque esse título não cabe somente a ela) , sem dúvidas vieram de nomes que essa nova geração gosta de desdenhar.

Apesar de alguns fãs não entenderem os novos caminhos e projetos de Wanessa, sua trajetória na música brasileira é de extrema importância, porque Wanessa nunca gostou de ser mais do mesmo desde que se propôs a cantar pela primeira vez "O Amor Não Deixa", seu primeiro single. E de lá pra cá ela foi uma camaleoa, até quando se viu sozinha sendo desbravadora de um gênero que não interessava economicamente para a industria fonográfica mainstream que diga-se de passagem foi cruel com a trajetória da artista.

Por beber exclusivamente na fonte do pop de Madonna e Britney Spears, ao se deparar com o mercado que aos poucos viu no funk uma possibilidade de renovação do pop, Wanessa talvez por não se identificar tanto com o novo gênero, preferiu não sucumbir. De fato a sua migração para o sertanejo não parece coerente, após a mesma dizer publicamente que não era adepta ao gênero. Mas por outro lado, para a artista se manter no jogo , faz mais sentido cantar sobre algo de sua vivência. Afinal, agora que ela é mãe de dois lindos garotos e não se considera mais tão jovenzinha, é mais aceitável ela cantar versos românticos do que falar sobre balada, ostentação e joguinhos de sedução adolescente, marcas registradas de 99% das cantoras pop que estão no topo das paradas atualmente.

A questão é, Anitta e sua sagacidade merecem todos os nossos aplausos, mas saudosamente, Wanessa e sua geração merecem o nosso respeito. 

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